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Mineiro é dono de pizzaria e dá cursos em Cabul

Em meio ao conflito que se arrasta há oito anos no Afeganistão, o brasileiro Sérgio* encontrou formas de realizar seu sonho: ajudar na reconstrução do país e ser um homem de negócios.

Pizza Brasil faz entregas por toda Cabul
O mineiro, de 38 anos, que não quis revelar seu nome por questões de segurança, mudou-se com a mulher e os dois filhos para Cabul em outubro de 2005 e, hoje, é dono de um centro educacional que oferece cursos profissionalizantes e de uma pizzaria, que ganhou o nome de Pizza Brasil.

"Viemos para cá ajudar na reconstrução do país e, ao mesmo tempo, estamos ganhando dinheiro”, disse Sérgio à BBC Brasil.

Ele conta que os estrangeiros são "muito visados" no Afeganistão e que sua semelhança com americanos – ele é loiro e tem olhos azuis – lhe obriga a tomar todas as precauções possíveis.


Sérgio contou que só anda de carro com um motorista afegão, não viaja pelas cidades do país, e tem empregados para fazer todas as compras da casa, de nove quartos e localizada perto do Parlamento, em um bairro nobre da capital afegã.

O brasileiro disse "não viver com medo", mas lembrou já ter escapado de atentados só porque chegou "minutos" depois.

"Tentamos viver sem medo porque, se pensar nisso o tempo todo, não se vive."

Vida normal

Enquanto tenta levar uma vida normal, o brasileiro disse estar feliz com o resultado dos negócios.

"A pizzaria atrai uma clientela estrangeira muito boa porque, aqui em Cabul, só tem pizzas feitas por afegãos, que não agradam aos estrangeiros. Não têm mozzarela e muito pouco tomate", disse o mineiro, acrescentando que a pizza mais pedida é a Tropical, com frango e abacaxi.

Sergio acredita ser o único estrangeiro a ter uma pizzaria na capital afegã. Por razões de segurança, ele prefere não ter espaço para receber os clientes e faz apenas entregas em casa.
Para isso, conta com três entregadores afegãos que percorrem toda Cabul de moto entregando as pizzas.
"É um ótimo negócio porque as pessoas têm medo de sair à noite e não têm um lugar para ligar e encomendar uma pizza", disse o brasileiro, que cobra de 600 a 800 afegani (R$ 25 a 30) por uma pizza tamanho gigante.
"Eu já ensinei dois pizzaiolos afegãos que trabalham pra mim. Hoje, eu já não ponho mais a mão na massa", disse ele.
Sérgio divide a jornada de trabalho entre a Pizza Brasil e um centro educacional criado por ele e pela mulher, que oferece cursos profissionalizantes para afegãos de várias faixas etárias.
Pizzaiolo afegão coloca a mão na massa
Ele contou que, com parte dos lucros da pizzaria, é possível bancar os estudos de 50% dos alunos. Entre os cursos oferecidos estão carpintaria, inglês, costura, bordado, crochê, pintura e informática.
Os cursos duram, em média, seis meses e contam, atualmente, com 100 alunos afegãos matriculados.
À frente da escola está a mulher de Sérgio que, por ser pedagoga, conseguiu a autorização do governo afegão para abrir o centro educacional.
Espírito aventureiro
Sérgio contou que a paixão por conhecer outros países foi o que o levou ao Afeganistão.
Antes de chegar ao país asiático, ele morou com a família nos Estados Unidos e na Escócia. O espírito aventureiro, lembrou ele, vem da infância, quando o pai, gerente de banco, se mudava de cidade a cada três anos.
A idéia de tentar a vida no Afeganistão partiu de conversas com uma amiga brasileira que trabalhava em uma agência humanitária em Cabul.
"Sempre gostei de sair pelo mundo, conhecer outras culturas. É fascinante poder conhecer o mundo islâmico que, apesar de pouca liberdade, tem um povo muito alegre e acolhedor, parecido com o brasileiro", comparou.
No Brasil, ele trabalhava como representante comercial e morou com a família em várias cidades, sempre em busca de "explorar, conhecer o mundo".
Sua vocação para ser nômade, no entanto, não parece ter sido herdada pelos filhos. Ele conta que os meninos, de 15 e 11 anos, não gostam de morar no Afeganistão e querem voltar para a Escócia.
"A vida aqui não tem lazer nenhum. A gente faz tudo em casa. A casa é nosso shopping, nosso tudo", disse. "Saímos na rua o mínimo possível, temos um motorista e empregados para fazer as compras."
Contraste fascinante
Ele explicou que as regras para se viver em um país em guerra vão além dos cuidados com a segurança e impõem também a adoção de hábitos culturais completamente diferentes dos brasileiros.
O que mais estranhou, disse, foi ter de se habituar a ver a mulher usando o véu para cobrir os cabelos e as "dificuldades para conseguir comprar a cervejinha".
Ainda segundo o brasileiro, não há como se comparar a situação da segurança no Brasil e no Afeganistão.
"A segurança aqui não existe. Se no Brasil ela é um problema, aqui é muito pior. No Brasil, tem muita criança de rua, mas, aqui, é muito mais, é uma coisa louca."
Com os negócios indo bem, a família não tem planos de voltar para o Brasil.
"Vivo falando para os meus amigos brasileiros que, aqui, há muitas oportunidades. Se viessem pra cá e abrissem uma padaria, iam fazer o maior sucesso." Até agora, não conseguiu convencer nenhum.

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